Christino Áureo: Macaé precisa investir em infraestrutura

De acordo com o deputado, novo ciclo de desenvolvimento depende de muito trabalho e vontade política

Por Jornal Expresso 13/04/2018 - 13:21 hs

 

Natural de Glicério, na região serrana de Macaé, Christino Áureo (PP) se tornou, na última década em um dos políticos de maior expressão do interior do Estado. Deputado estadual em seu terceiro mandato, ele retornou na última semana à Alerj após enfrentar o maior desafio de sua carreira: ser o condutor da política de recuperação econômica do Estado, à frente da secretaria de Casa Civil e Desenvolvimento Econômico. Assumir a pasta, acabou virando a vitrine de um governo com baixa popularidade e vários problemas, como o atraso do pagamento dos servidores ativos e aposentados. Na quarta-feira Christino recebeu a equipe do Expresso Regional para um bate papo em seu gabinete na Alerj. Na entrevista, que durou cerca de uma hora o deputado falou de sua trajetória neste período em que esteve na Casa Civil e sobre a polêmica discussão em torno do Regime Aduaneiro Especial de Exportação e Importação de bens destinados à exploração e à produção de petróleo e gás natural, popularmente conhecido como Repetro. Também falou sobre a política de Macaé e as saídas que o governo municipal precisa tomar para que a cidade possa retomar o crescimento econômico.

 

Expresso Regional -  Fale-nos um pouco sobre sua passagem pela Casa Civil do Estado e o desafio de participar de um governo com alta desaprovação popular.

Christino — Assumimos a Casa Civil, num período terrível da economia Brasileira e principalmente do Estado. Para se ter ideia, estive hoje conversando com o professor Raul Veloso, que foi meu professor na UFRJ, e ele me apresentou dados que mostram que desde 1901 nunca se teve uma queda tão acentuada de PIB, foi quase 8% no biênio 16/17. A missão que eu recebi foi alinhar o governo aos grandes linhas da retomada do setor além de resolver a grave crise financeira que o Estado atravessava tocando em frente uma política de recuperação fiscal que, no começo poucos acreditavam, mas que hoje a sociedade já reconhece que deu certo. Esta semana, por exemplo vamos pagar rigorosamente em dia pelo terceiro mês consecutivo o salário de todos os servidores ativos e inativos. Só de ter tirado as pessoas desta angústia de terem o pagamento atrasado já é um grande alívio, sobretudo porque sabemos que os servidores que mais sofreram com este período foram justamente os que recebem os menores salários. Eles foram os mais penalizados por esta crise.

 

Expresso Regional — E, politicamente, o senhor não teve a preocupação de perder eleitores ao assumir o protagonismo de um governo com baixa aprovação popular?

Christino — Fazer parte de um governo impopular não é agradável para ninguém. Mas há tarefas que você não pode deixar de fazer dentro da responsabilidade como político. Se você está eleito, as pessoas esperam que você trabalhe não só nas horas boas, quando se está inaugurando obras ou entregando serviços. Nas horas difíceis e de crise é que a população precisa enxergar que aquele político que ela elegeu e que aceitou um desafio numa hora ruim é que pode fazer a diferença. Eu topei o desafio sabendo dos riscos eleitorais, mas também na possibilidade de fazer um bom trabalho.

 

"Fazer parte de um governo impopular não é agradável para ninguém. Mas há tarefas que você não pode deixar de fazer dentro da responsabilidade como político"

 

Expresso Regional — De volta à Alerj, o senhor já terá uma pedreira pela frente que é a discussão em torno do Repetro. Como o senhor enxerga esta polêmica?

Christino: O Repetro está sendo discutido agora na Alerj, mas nós já estamos tratando deste assunto, no governo estadual, desde dezembro de 2016. Para que o governador pudesse assinar e publicar o decreto, no início de março, houve mais de um ano de discussão. E onde estava este pessoal que hoje está querendo discutir o Repetro? Nós discutimos isso em Brasília com os 26 outros estados, discutimos isso no Congresso, acompanhando a votação da Medida Provisória 791, que virou Lei Federal, que renovou o Repetro. E, enquanto o Repetro estava sendo discutido por quem realmente se interessa na retomada do desenvolvimento econômico, esta discussão estava adormecida. Aqui na casa (Alerj) nem se falava do assunto. Acho importante que as pessoas saibam que esta luta do Repetro que está sendo visível hoje até lá em Macaé, tem um trabalho que fiz como secretário que as pessoas não viram.

 

"Nós já estamos tratando deste assunto, no governo estadual, desde dezembro de 2016. Para que o governador pudesse assinar e publicar o decreto, no início de março, houve mais de um ano de discussão. E onde estava este pessoal que hoje está querendo discutir o Repetro?

O Repetro é um acordo firmado entre o governo federal e os demais 26 estados da União. Se anularmos a nossa participação neste acordo, como alguns setores defendem aqui na Alerj, vamos ficar menos competitivos.

Temos o cronograma de quantos plataformas serão instaladas até 2023. Tendo problema no Repetro, podemos atrasar este investimento. Não precisa fazer muita conta. Se a indústria tiver que escolher entre pagar 18% aqui ou 3% nos estados que tem Repetro, é claro que ela vai escolher aonde tem o custo menor. Não estou lutando pelo governo A ou B. Estou lutando pelo estado, lutando por Macaé. O maior impacto na mudança do Repetro vai ser para as futuras gestões.

 "vejo um hiato nas obras viárias, não surgiu nada impactante no ponto de vista nos últimos 10 anos"

 

Expresso Regional: E quanto à Macaé. Há solução para a crise que a cidade sofre?

Christino Áureo — A solução passa, sobretudo, pela vontade política. Eu falei isso na campanha eleitoral de 2012 e de lá pra cá a cidade tem exatamente a mesma receita. Porém não houve, de lá para cá, nenhum investimento significativo para melhorar a infraestrutura industrial e aumentar a atratividade por novas empresas. Há muito tempo já deveria ser instalado um novo porto em Macaé, já que não temos mais condições de dar suporte compatível com a estrutura instalada no mar. Vendo esta dificuldade logística, perdemos várias empresas para o Espírito Santo e o Litoral Norte de São Paulo.

Além disso, vejo um hiato nas obras viárias, não surgiu nada impactante no ponto de vista nos últimos 10 anos. Precisamos de uma infraestrutura que fomente a atração de outros negócios. Outra coisa, a diversificação da economia tem que vir pelo conhecimento. Se a cidade já tem uma massa de profissionais da área do petróleo e começo a qualificar a população também para outras áreas, ela crio uma saudável competição pela mão de obra para atrair outros empreendimentos

Com todo o respeito, Macaé precisa se mostrar para o Brasil e o exterior. A cidade precisa de lideranças que saiam do ambiente local e que possam brigar aqui (na capital) pelos grandes investimentos. Macaé precisa de gente que tenha capacidade de cooptar investimentos para atrair empregos.

Por último, eu não consigo conceber uma cidade que não trate bem seus pequenos empresários. Quando uma grande empresa vai se instalar no município, ela conversa com os pequenos e médios empresários para saber qual a relação do poder público com o mercado local. O comércio da cidade está abandonado. Há cidades menores que Macaé com um nível de sobrevivência maior de seus negócios. 

Temos elementos tornar Macaé em uma cidade de pleno emprego e exportação de mão de obra. Eu tive a oportunidade de ser secretário de desenvolvimento econômico de Piraí, e na época conseguimos criar lá uma matriz de desenvolvimento que não depende sequer de um centavo da indústria do petróleo ou da siderurgia que está ali do lado, em Volta Redonda. E isso conseguimos com a diversificação. Hoje empresas dos mais diversos ramos, de cervejaria a produtos de higiene pessoal estão instaladas em Piraí. Fatores de atratividade, conhecimento e vontade político é o que faltam para que Macaé saia da crise e vá além, tornando-se uma cidade desenvolvida e cada vez menos dependente do Petróleo.

 

 "não consigo conceber uma cidade que não trate bem seus pequenos empresários"